'Cavalo selvagem nove' não queria ecoar os EUA atuais, mas 'a história se repete com estúpidos no poder'

Democracia, golpes e homens estúpidos em 'Cavalo selvagem nove', segundo John Malkovich Mesmo com uma trama ambientada pouco antes do golpe militar no Chile, e...

'Cavalo selvagem nove' não queria ecoar os EUA atuais, mas 'a história se repete com estúpidos no poder'
'Cavalo selvagem nove' não queria ecoar os EUA atuais, mas 'a história se repete com estúpidos no poder' (Foto: Reprodução)

Democracia, golpes e homens estúpidos em 'Cavalo selvagem nove', segundo John Malkovich Mesmo com uma trama ambientada pouco antes do golpe militar no Chile, em 1973, "Cavalo selvagem nove" encontra ecos meio que por acidente com as tensões políticas atuais – muito por causa de episódios recentes do intervencionismo dos Estados Unidos. g1 já viu: John Malkovich e Sam Rockwell elevam fórmula melancólica O novo filme do cineasta de "Os banshees de Inisherin" (2022) e "Três anúncios para um crime" (2017), em cartaz no Brasil desde quinta-feira (5), estrela um John Malkovich favorito para ganhar seu primeiro Oscar como um espião da CIA em profunda crise existencial. "Não era para ser um retrato do mundo moderno, mas, depois de pronto, ao assistir com o público – a geopolítica moderna, o que aconteceu com os EUA e a Venezuela, todos esses fatos pareceram emitir um tipo diferente de reflexo", diz o diretor e roteirista irlandês Martin McDonagh em entrevista ao g1. "Os ecos de um lugar para o outro estão lá. Talvez porque a história tende a se repetir quando homens estúpidos estão no poder da história." "Cavalo selvagem nove" acompanha dois espiões veteranos (Malkovich e Sam Rockwell, que também deve receber pelo menos uma indicação como coadjuvante) enviados em uma missão nebulosa que deságua em uma viagem existencial pela Ilha de Páscoa, famosa pelas estátuas de cabeças gigantes. No cenário ensolarado, mas bucólico (como é tradição nos filmes de McDonagh), o cineasta constrói uma reflexão ácida sobre legado, vida, morte e, de leve, sobre os impactos do imperialismo americano pelo mundo e o preço da democracia. Sam Rockwell e John Malkovich em cena de 'Cavalo selvagem nove' Diego Araya Corvalán/Searchlight Pictures 'Democracia homicida' O equilíbrio entre humor e melancolia se manifesta em uma das memórias do protagonista sobre seu encontro com um líder revolucionário da República Democrática do Congo – um momento marcado na mente de Malkovich. "A fala sobre Patrice Lumumba é uma das mais sombrias de que eu já achei graça, que é quando Patrice Lumumba diz: 'Se você me matar, estará matando a democracia na África pelos próximos 50 anos'. E o Chris responde: 'O que você acha que estamos tentando fazer?'", lembra o ator em conversa realizada no começo de outubro, pouco depois do primeiro turno das eleições brasileiras. "Democracia, como você bem sabe, nesses últimos dias no Brasil e muito antes, é uma coisa muito disputada, difícil, árdua, às vezes violenta, às vezes homicida. Um desafio muito difícil." Aos 72 anos, ele já falou que não vota desde 1972, quando o democrata George McGovern perdeu a eleição à Presidência americana. Mesmo assim, acredita que é hora de seu país refletir sobre os erros do passado – só não vê isso acontecendo tão cedo. "Acho que arrependimento e reflexão sobre o motivo do arrependimento é um elemento essencial da vida, e entender o que você fez de errado e o motivo pelo qual errou também", afirma o ator. "São coisas importantes para sua alma imortal. E eu não sei se este é um país ou uma cultura que apoiam essa visão, provavelmente." John Malkovich e Sam Rockwell em cena de 'Cavalo selvagem nove' Diego Araya Corvalán/Searchlight Pictures